Sob a Garoa e o Concreto
Estação Paraíso
Relato 3#
Estação Paraíso
É pra falar do que tenho medo, né? Na moral, doutora, eu não tenho medo de quase nada. Fui criado pra ser homem, papo reto. Até parece que um mano igual eu vai ter medo de alguma fita... olha tudo que eu já contei pra senhora, as parada que eu passei na rua.
Minha mãe me ensinou a ser forte desde moleque, tá ligado? Não levar desaforo pra casa, tirar satisfação com quem fica olhando torto. O mundo é dos espertos, doutora. Cada um com seu cada qual, tá ligado?
Ah, esqueci de passar umas ideia; que bom que tá rolando essa fita do governo, dos médico colar aqui na quebrada. Minha coroa finalmente conseguiu colocar os dente dela que tinham caído já fazia uma cota. Ver a velha sorrindo de novo é outra fita.
A Milena ficou insistindo pra eu vir trocar ideia com você, mó perrecagem! Já mandei a real pra ela que eu não sou louco. Mas ó, vou desenrolar as ideia pra você, mas não espalha essa fita. Achei daora que você pediu pra eu escrever. Eu curto escrever umas poesia, tá ligado? É o único momento que da pra desligar a mente das neurose do dia a dia.
Eu trampo o dia todo de moto fazendo entrega, acordo cedão todo dia, coloquei umas meta na cabeça. Vou subir uma ‘goma’ pra morar com a Milena até o fim do ano que vem, to nos papo de pedir ela em casamento. Vou casar lá no Guarujá, o pastor Junior joga bola com a gente todo domingo, o maluco é gente boa, falou que me ajudar a preparar todo o esquema. Acho que a Milena tá nas ideia errada de que eu to estranho, e ‘to memo’, não consigo ficar escondendo as parada dela. Ele parece que percebe e fica me fazendo umas pergunta nada a ve.
Falando nisso, doutora... eu queria entender uma parada. Ontem eu tava na última entrega do dia, já era quase uma hora da manhã. Passei ali no viaduto do Paraíso, aquele que passa em cima da 23 de Maio, e vi uma mina de pé na beira da ponte, olhando lá pra baixo.
No começo, achei que era zoeira, algum vídeo do Tik Tok, sei lá. Mas aí eu parei a moto e vi que a fita era séria; ela tava chorando, doutora. Alem dela estar ali; o pior é que a rapaziada tava passando do lado dela, de carro, a pé, e ninguém fazia nada, tá ligado? Parecia que a mina era invisível.
Na hora me deu um estalo. Desci da moto, tirei o capacete e fui chegando perto, bem devagar. Eu não sabia muito o que falar, não sou bom com as palavra igual a senhora, então só cheguei e coloquei a mão no ombro dela. Ela levou um susto, deu um grito. Eu só consegui falar:
— Calma... faz isso não.
O mundo é cão, doutora, mas jogar a toalha assim, no meio da 23, não é o caminho.
Ela desceu da beira da ponte, olhou nos meus olhos e falou.
— Desculpa…
Perguntei onde ela morava e a mina era ali de perto, morava colada no Ibirapuera. Minha coroa sempre falava que ali é onde mora os ‘bem de vida’, só os granfino, tá ligado? Subi ela na garupa e levei até o prédio. O caminho todo eu só ouvia o soluço dela no meu ombro, a mina foi chorando sem parar atrás de mim.
Ela não deu um pio o trajeto inteiro. Cheguei na portaria daquele prédio luxuoso, daqueles que tem segurança até na calçada, e apertei a campainha do apartamento dela. Quando a mãe atendeu pelo interfone, eu fiquei em choque. Expliquei que tinha achado a filha dela na rua, perdida, mas na hora me deu ‘mó neurose’... fiquei com maior receio de falar que a mina tava querendo se matar, tá ligado? Não queria expor ela assim pros coroa dela. Falei que ela tava passando mal.
Aí o pai e a mãe desceram correndo. Eu ali, de capacete na mão, blusão de entregador, e os dois vindo num desespero, vestindo umas roupa que devia valer mais que a minha moto. Mas, quando eu bati o olho naquela senhora, doutora, o sangue subiu. Me deu um ódio.
Reconheci ela e o marido. A mulher puxou a mina pelo braço pra trás dela e me fitou de cima a baixo como se eu fosse um criminoso, um vagabundo que tava ali pra assaltar. Nem um ‘muito obrigado’ os infeliz soltaram.
Eu já conhecia aquela olhar de superioridade, doutora.
Quando a Milena começou a trampar no Bradesco, ela ganhou dois ingressos pra ver uma tal de orquestra tocando lá no Shopping Iguatemi. Eu logo mandei a real pra ela, falei que não ia colar nesse rolê de playboy de jeito nenhum, que não era o nosso ambiente. Mas a Milena... a Milena falou com um brilho no olho que era o sonho da vida dela ver aquela parada de perto. Ai eu não aguentei. Aquela mina sabe me convencer das parada.
Eu já te falei que nessa época eu trampava no Brás como estoquista, né? Pois é. Aproveitei o horário de almoço pra dar um pulo nas loja e comprar uma camisa social e uma calça daquelas de patrão. Gastei uma grana que eu nem podia, doutora. Passei até na lojinha de um parceiro meu pra comprar uma joia fininha pra gata.
Me troquei lá mesmo, no banheiro do serviço, passei um gel no cabelo... os mano que trabalhava comigo ficaram tudo me zoando, me chamando de pastor hahahaha
Mas ae, papo reto; fiquei na estica. Fiz questão de descer as manga da camisa até o pulso pra cobrir as tatuagem do braço, pra não dar pala. O problema é que tava um calor infernal, aquele mormaço de São Paulo que derrete até asfalto. Eu suava uma bica no metrô ‘estrumbado’, doutora, mas aguentei firme pela Milena.
Cheguei na Faria Lima e fui na caminhada até o shopping. Nunca tinha pisado naquele lugar... Parecia que eu tava em outro mundo. Só loja de playboy, bagulho doido. Vi uma camiseta na vitrine que custava o preço de dois meses de trampo meu.
A Milena já tava lá na praça de alimentação me esperando, tava mó gata! Ela tinha pedido um vestido emprestado pra uma gerente do banco que ela fez amizade; a mesma que desenrolou os ingressos pra ela ir ver o concerto. E o bagulho foi de elite: ela pegou logo os bancos da frente do teatro. A gente ali, no meio de tudo, mostrando que também pode ocupar esses espaços.
Descemos até os bancos de frente pro palco e o casal já tava lá sentado: os pais da mina. Eu tentei me portar direito, mandei aquele “boa noite” educado, mas eles já olharam estranho pra gente. Parece que esse povo enxerga que a gente não é “dos deles” só pelo olhar.
Tentei desenrolar uma ideia com os coroa, mas eles deram um sorriso sem graça, misturado com uma cara de nojo. Até hoje não sei se ela fez aquela cara por causa do cheiro do desodorante que passei no banheiro, pra disfarçar o suor do corre que fiz até lá. A coroa olhou pra mim e pra Milena, cochichou algo no ouvido do velho e os dois pularam dois bancos pro lado, onde não tinha ninguém. Foi uma merda, a Milena percebeu também, mas a gente manteve a postura e ficamos ali. E vou te falar, o bagulho é mó bonito de ver.
Eu só reconheci de verdade a coroa quando ela desceu pra buscar a filha na portaria por causa do marido que chegou depois. O velho é político, acho que deputado, sei lá. Vi uma foto dele na época das eleições, num cartaz que dizia: “Deus, Pátria e Família”. Sinceramente, doutora, eu não entendo... Com toda essa pose de família perfeita, eu não sei por que a filha deles queria se matar. Não desejo isso pra ninguém.
Eu também acredito em Deus, doutora, mas tem umas paradas que eu não entendo. Será que todo mundo lê a mesma Bíblia?
Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Naquele dia, lembrei de uma fita que passei com a minha coroa quando eu era pivete, devia ter uns doze anos. Foi logo depois que o desgraçado do Marcelo deixou ela e eu sozinhos. O pastor da igreja da minha mãe convidou ela pra participar de um congresso; tipo um encontro de várias igrejas e pastores.
Minha mãe tratou aquilo como se fosse o maior evento da vida dela. Só que a gente tava sem grana nenhuma; fazia uns dois anos que ela não comprava uma peça de roupa pra ela. Mesmo assim, ela deu um jeito; escolheu o melhor vestido dela e separou o melhor pano pra mim.
Chegamos lá já um pouco atrasados. Nem lembro direito onde era, só sei que era longe pra caramba de casa: pegamos dois ônibus e metrô pra chegar. Minha mãe e eu sentamos, ela se inclinou e já começou a orar.
Foi aí que eu escutei uma voz lá no fundo, sussurando:
— Como pode vir vestida assim pra casa de Deus? Eu sempre escolho a melhor roupa.
Minha mãe deu aquele sinal de que ia interromper a oração pra olhar, mas desistiu. Engoliu o seco e continuou ali, falando com o Pai.
Guardei aquela pergunta martelando na cabeça até chegar em casa. Quando finalmente pisamos no nosso chão, eu soltei:
— Mamãe, será que é pecado ser pobre?
Ela fez menção de que ia me dar um tapa, mas parou. Respirou fundo, olhou bem lá no fundo dos meus olhos e respondeu com aquele jeito de nordestina arretada que ela tem:
— Primeiro, que você não é pobre! Eu te dou de tudo. E não, não é pecado ser pobre, não. O pecado mora é na soberba dos homi.
Minha mãe me ensinou que humildade não é fraqueza.
Depois que deixei a mina na casa dela, eu voltei pra minha, deitei na cama e fiquei pensando… Mesmo com tudo que ela tinha, doutora... Você é psicóloga, cuida da cabeça dos outros, deve saber a resposta.
Aquela mina lá da ponte me lembrou um pouco a ex-patroa da minha coroa. A mulher trampa fazendo vídeo pra internet, tira mó grana com isso. Vou te falar, se eu tivesse esses dom, largava as entrega na hora pra fazer essa fita também. Na tela, ela fala de umas parada de feminismo, estilo de vida, política... mó discurso bonito. Minha mãe falava que ela era até gente boa no começo. Só que o bagulho era louco nos bastidor, tá ligado? De vez em quando ela brigava com o namorado e os dois destruíam a casa inteira. Um dia, numa dessas treta, estouraram uma taça de vinho na parede. Manchou tudo, espirrou no tapete claro deles. Minha velha ficou o dia inteirinho ajoelhada, esfregando aquelas mancha vermelha pra tirar a marca da briga dos dois. Pensa no corre, doutora; a coroa saindo aqui do fundão da Z/S, pegando busão e metrô lotado pra colar lá em Perdizes, limpar a fúria dos outros e ganhar dois conto no fim do mês.
Mas vou ser justo, teve um dia que a mina falou que ia divulgar o trampo da minha coroa. Fez um vídeo lá, mostrando as marmitinha que minha mãe preparou e o jeito que ela deixou os armário trincando de arrumado. Chamou minha velha de 'Personal Organaize'... uma parada assim. E vou te falar, o bagulho deu certo memo. Minha mãe recebeu mensagem a rodo no celular. Só que ela é uma só, né, doutora? Duas mão, duas perna. Não tinha como dar conta de atender aquele mar de gente. Mas, ó... pelo menos ela pegou aquele vídeo e mostrou pras irmã lá da igreja, cheia de orgulho.
O orgulho durou pouco. Uma das irmãs da igreja, que é mais nova e manja das redes sociais, começou a rolar os vídeos da patroa e achou uma postagem lá onde a mina esculachava as crente. Falou que as evangélica se vestiam mal, que eram tudo alienada e manipulada por pastor. Teve a coragem de dizer que o problema delas era que não transavam e que, no fim das contas, elas tinham que ter mais 'consciência de classe'.
Vê se pode, doutora? Consciência de classe? A minha velha tinha consciência de classe todo dia quando acordava às cinco da manhã pra limpar o chão dela.
A minha coroa não é de levar desaforo, mas ela é fina, tá ligado? Fez questão de ir no dia seguinte trocar uma ideia com a mina. A patroa veio toda pacífica, com aquela voz mansa, falando que minha mãe não entendia, que era um ‘assunto complexo’, que ela não tinha ‘bagagem’ pra entender o que tava sendo falado nos vídeo.
Ali o mundo da minha velha caiu de vez. Pra patroa, ela não era uma mulher de garra, uma mãe que criou filho sozinha, uma trabalhadora... ela era só uma ‘alienada’. Alguém que precisava de uma aula de quem não sabia nem dobrar as próprias roupas.
Uma semana depois daquela discussão, a patroa mandou minha coroa embora. Veio com um papo furado, falou que ela tava cansada, que ‘precisava descansar’... na verdade, só não queria ver na frente a mulher que ela não conseguiu dobrar com o discurso dela.
Aqui na quebrada a gente odeia hipocrisia, doutora. Deve ser por isso que nessa loucura toda tem favelado votando no pai da menina da ponte.
Minha velha saiu de lá com o mundo nas costas. No metrô, a caminho de casa, o corpo dela cobrou a conta. Ela passou mal dentro do vagão, a vista escureceu, o peito apertou... e sabe o que é mais triste? Expulsaram ela do trem, doutora. Botaram ela pra fora na plataforma pra viagem não atrasar.
Ela ficou lá, jogada no chão da estação, até que, por sorte, uma enfermeira que tava saindo do plantão viu ela e correu pra ajudar. Minha mãe teve um princípio de infarto ali mesmo, no meio do povo passando.
São Paulo é selva, doutora. E eu também não sou santo, não. Eu traí a Milena lá no começo do relacionamento, sabe? E eu carrego uma culpa que parece uma pedra nas costa até hoje. Tem dia que eu não consigo nem sentar pra orar com a minha coroa; sinto que sou sujo, que Deus não quer escutar as ideia de um cara igual eu.
Eu fui moleque. Mas a minha mãe sempre dizia que o problema é não enxerga o próprio pecado.
Eu fiquei com medo, doutora. Medo de verdade. Medo da minha mãe morrer ali, no meio daquela estação, sem eu conseguir fazer nada por ela depois de tudo que ela já fez por mim. Mas vou te falar... o que me gela o sangue mesmo é outro bagulho. Eu tenho medo é da maldade de quem se acha bom. Tenho medo de quem não enxerga ou não acredita no próprio pecado.


